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A culpa é sempre do cachorrinho

Todos os dias ele acorda com a pá virada. Sai bufando pelos corredores com seu cabelo desgrenhado, punhos cerrados e muita tensão no queixo. A família – esposa, duas filhas e um cachorro hiperativo- já é gato escaldado: silencia o café da manhã ao primeiro ranger da porta do quarto. Papai acordou. Ninguém pisca, ninguém respira.

Vinte e duas pancadas secas de calcanhar cascudo em madeira podre prenunciam o momento mais desagradável do dia. Ele desce a escadinha do sobrado e já manda um “puta que o pariu” antes mesmo de fazer a dobra do corredor que chega à cozinha. “Essa escada é uma merda, mesmo, a gente tem que mudar desse buraco”, anuncia o patriarca conforme senta sem olhar para os lados. O problema da escada não é novidade para ninguém, já que ele gosta de tocar no assunto dia sim, dia não; alterna com a questão da porra do chuveiro que nunca esquenta.

Silêncio. Manuela olha para o pai, sorri. Ele não vê. Tenta um approach mais ousado. “Bom dia, papai”. Ele olha, respira fundo para acalmar, ensaia um sorriso seguido de afaguinho na cabeça. Resmunga um cumprimento envergonhado para a família. “Elas não merecem passar por isso”, pensa. Fica triste, pede desculpas, abraça as meninas e chora um pouco; diz que está muito estressado com o trabalho e que deseja proporcionar uma vida melhor para todos em uma casa melhor.

Úrsula traz os ovos mexidos e coca-cola – de manhã mesmo, hábito cultivado desde a juventude. Ele agradece, manda um “te amo”, tenta pegar na mão. Ela ignora, senta no lado oposto da mesa e arruma o lacinho de Beatriz. Manuela continua abraçada ao pai. “Sua mãe é tão linda, né Manu?”, provoca o pai. A filha concorda, a outra abre um sorriso e olha para Úrsula, esperando qualquer reação da mãe. Não acontece. Ele pede desculpas de novo, deixa escapar algumas lágrimas, as filhas percebem. Silêncio constrangedor.

Todo dia é assim. Aí ele chora, chora, chora e pede desculpas por ser tão estourado. Ela fica com dó, acaba chorando também, a família toda se abraça. O nível de amor chega lá em cima, o cachorrinho chega lambendo todo mundo, caem na gargalhada. Num instante são família-problema, no outro são comercial de margarina. Oh, happy day.

Agora está tudo bem. Ele levanta, escova os dentes, pega a maleta do trabalho e o bilhete único. Beijinho na Manu, na Bia e beijão em Úrsula. “Te amo”, “te amo”. Brinca com o cãozinho, dá um petisco e caminha em direção à porta, imponente. O perfeito pai de família. Estufa o peito com orgulho, estende o braço direito para agarrar a maçaneta.

Bloft. Afunda o pé em cocô de cachorro. Caralho, amor, você não limpou a bosta desse filho da puta ainda?

A perpétua razão de um cliente

O paizão da mesa sete olha pra mim, levanta o braço com a caneta imaginária e rabisca qualquer coisa no ar: é o famoso sinal do “fecha a conta pra mim, chefe?” Confirmo com a cabeça, bato o olho com a Vanessa do caixa. Dou uma piscada, aponto com o nariz pra mesa sete. Ela entende.

Faltam três mesas. O casal da onze já pagou, copo de saquê no finalzinho. Hoje saio a tempo pro ônibus das onze.

Mesa três levanta. Vão pagar direto no caixa, é cartão. Dava pra trazer a maquininha na mesa, mas deixa quieto, já foi. Recolho os pratinhos, passo o pano no shoyu que espirrou; percebo que eles deixaram intactos três sashimis de salmão. Droga. Bom, deixa pra lá, o Rubão tá lá dentro e nem vai ver, dessa vez passa.

Aqui no Sushi é assim. Tem rodízio, o pessoal gosta, mas se não comer tudo tem que pagar o adicional por peça. Antes o pessoal pedia muita coisa e sobrava aquela peixarada crua toda. Acaba dando prejuízo, por isso tem essa “taxa da sobra”; e se eu não cobro do cliente o Rubão desconta dos meus 10%. Desta vez passa.

As três amigas da doze falam alto. Tagarelam qualquer coisa sobre água de garrafa importada e língua de boi. A mais gordinha levanta o braço pra mim. Olho na esperança de ver a caneta imaginária, mas não acontece. Em que posso ajudar?

“Mocinho, troca o prato pra mim?” Olho para o tal, está transbordando shoyu. Aceno com a cabeça, recolho a lambança, me retiro. “Ah, e vê se o nosso combinado tá saindo?”, ouço já de costas. “E o meu salmão grelhado, hein, faz tempo que pedi”, grita a outra amiga ruiva. Sim, senhora. Viro novamente e a gordinha manda um “não esquece que é sem peixe branco, só com atum e salmão”. Sim, senhora. E eu achando que ia sair cedo.

Fabiano, e os pratos da doze? “Chegou pedido no delivery e o Rubão quis um temaki, mas tá quase”. Beleza. Vou até a mesa, posiciono o pratinho limpo. Senhoras, o pedido já está a caminho. A terceira amiga, óculos verde, torce o nariz pra mim e solta aquele suspiro característico de “estou achando tudo uma merda”. Com licença, senhoras.

Só tem elas no restaurante. Fabiano me chama, saiu o salmão grelhado. “Leva esse e volta que o combinado tá saindo”. Vejo o Rubão logo ali, com cara de sono enquanto deglute um temaki de salmão completo, finge que não me vê. Normal.

Aqui está, senhoras. Agora vou buscar o combinado. “Não precisa, pode cancelar, demorou demais”, me diz a ruiva. Sim, senhora.

Rubão, a doze pediu pra cancelar. “Avisa que vai ter taxa de sobra”. Sim, senhor.

Senhoras, o restaurante tem uma norma para as sobras no rodízio, e… “Que absurdo, então embrulha pra viagem que eu não vou pagar porra nenhuma”. Sim, senhora.

Rubão, pediram pra embrulhar. “Avisa que a embalagem é R$5,50”. Sim, senhor.

Senhoras, o custo… “Menino, chama o gerente”. Sim, senhora.

Fico olhando de longe. As três e o Rubão. A gordinha tá nervosa, avermelhada. Aponta pra mim. Rubão falseia um sorriso, pede desculpas. Fabiano traz o combinado na embalagem. Elas acalmam, o Rubão vira pra mim, pisca um olho e dá aquela canetada no ar. Finalmente. Vanessa soma tudo. Três rodízios, duas águas com gás, uma coca zero. Sem taxa de sobra nem custo de embalagem.

Aqui está, senhoras. Elas passam no cartão, pedem pra não incluir meus 10%.  “O serviço deixou a desejar”
Bom, o cliente também.

Sobre suor e paternidade

O escritório segue sua rotina normalmente. Nas duas salas da diretoria – uma executiva, a outra financeira – acontecem pequenas reuniões. O espaço lembra uma redação de jornal, talvez a área de criação de uma agência de publicidade. As pessoas andam de uma mesa à outra, conversam, trabalham, assistem um vídeo no YouTube ou conferem sua rede social preferida.

Época de relatório trimestral, o dia anterior fora intenso. Todo mundo maluco pra finalizar tabelas, cumprir metas, juntar tudo e revisar. Ficou pronto, pelo menos. Hoje dá pra sentir uma leve desaceleração no ar. Ainda tem coisa pra fazer – imprimir, botar na pasta, entregar – mas o trabalho mais difícil já passou.

Está calor. O ar-condicionado não dá conta. As meninas sentem frio. Os meninos – alguns mais do que outros – sentem calor. É sexta-feira, dia mais casual, elas podem trabalhar de vestido. Não podem, aliás, devem. Eles não podem vir de bermuda, a não ser que depilem a perna.

O escritório, chamado de sede, cuida de vários projetos, todos relacionados a livros e leitura. O que para uns é apenas um dia que precede o fim-de-semana, para mim é o último dia na empresa.

Do lugar em que estou sentado – minha mesa antiga já está em uso por quem vai me substituir – posso ver todo mundo. Uns sorridentes, alguns mais concentrados. E eu aqui, sem trabalhar. Basicamente tenho treinado minha substituta e nos últimos dois dias apenas tirei dúvidas ou dei meus pitacos para o futuro, como uma mãe que deixa o filho ir no primeiro passeio da escola.

Claro que estou com ciúmes. Entregar o site que eu projetei, a rede social que eu consolidei, nas mãos de outra pessoa? Rola um ciuminho, afinal. “Cuide bem dos meus filhinhos”, penso, sabendo que a tal é muito bem qualificada para ficar no meu lugar. Mas que dói, dói.

O filho não é biológico, mas adotivo. Esteve sob meu comando esse tempo todo, por isso o amor é o mesmo. É meu!

Não existe rancor, apenas uma pequena tristeza de ir embora, seguir um outro caminho que eu mesmo decidi trilhar.

Olho para meus colegas, sinto aquela engasgada marear um pouco a visão. Gente trabalhadora, gente bacana que talvez eu não tivesse conhecido se não fosse por este emprego. Gente que talvez eu nunca mais vá ver na vida, ou que vão me acompanhar em almoços esporádicos. Alguns serão meus colegas novamente no futuro ou até mesmo se tornarão amigos pra vida toda.

Não dá pra adivinhar, mas dá uma baita saudade antecipada. A gente nunca dá o valor devido às pessoas com quem convivemos até chegar o dia em que não as veremos mais. Pode parecer dramático, mas trocar de emprego é uma grande mudança na vida. Passamos pelo menos um terço de nossos dias com estas pessoas. É o fim de um relacionamento. Daqui pra frente pode até haver algum tipo de contato, mas nunca vai ser a mesma coisa.

E é por isso que agradeço a todos os meus futuros ex-colegas. A gente se vê.

Sigo para uma nova rotina, uma nova vida. Sigo para uma nova família também disposta a me receber no um terço de seus dias. Deixo meu filho crescer e andar com as próprias pernas. Acompanharei de longe, enquanto adoto novas crianças em minha vida profissional.

Mas já deixo de sobreaviso, quase como ameaça, à família nova: LIGA A PORRA DO AR-CONDICIONADO!

Ideias Selvagens

A brisa do final da tarde entra suavemente pela janela, estalando as persianas. Do recinto emoldura-se a paisagem central de uma grande metrópole. Arranha-céus modernizados dividem espaço com prédios tombados e as luzes, muitas luzes, em movimento, criam a atmosfera caótica que uma cidade deste porte transmite, mas sem o fator poluição sonora; estamos num andar alto, o barulho não atrapalha.

Prateleiras de livros amassadinhos (sinal de que foram lidos, alguns mais de uma vez) dividem o escritório – ou estúdio, que é mais charmoso de se chamar – com dois ou três quadros de alto valor no mercado. Na mesa alguns objetos assinados por designers famosos. Em destaque, quase como num altar, o computador. Separado do Artista por apenas um risque-rabisque, seria uma máquina de escrever não fossem insubstituíveis as facilidades de fazer, desfazer e refazer que o artefato mais modernoso apresenta.

Ali se produz Arte. A maiúscula mostra a soberania do que é feito lá frente a tudo mais produzido pela humanidade.

Tenho essa fantasia romântica e pequeno-burguesa de ter as condições ideais para produzir arte, principalmente literatura. Mais que ideal, trata-se de um santuário. Digo que é romântica porquê espera-se que este altar da criação transborde arte e cultura pelas prateleiras, pela decoração, pelos livros e até pela disposição de objetos em cima da mesa. Espera-se que qualquer desavisado recém-adentrado no muquifo seja tomado pela certeza absoluta de que ali um artista de alta qualidade transborda suas ideias geniais. Deve ser, claramente, um lugar inspirador.

Chamo de pequeno-burguesa, pois obviamente um espaço desses custa caro. Nem me refiro especificamente aos óbvios e colossais gastos materiais, mas sim ao investimento de anos e anos em boas referências, formação e muito espírito crítico. Toques de Apple e Moleskine pincelam o espaço com a sofisticação que somente uma boa dose de consumismo intelectualóide conseguem proporcionar. É o marketing do valor agregado dando suporte à arte.

O meu atual muquifo está longe de ser este santuário, mas confesso ter um cantinho ali do lado da janela virada pro centrão da cidade. Em minha fantasia eu aproveito os momentos de solidão em casa, preparo uma boa xícara de café, me sento e jorro palavras geniais por intermédio de um teclado que, em conjunto, resulta em alta literatura.

Já a verdade verdadeira é um pouco mais cruel.

Se estou sozinho em casa acabo vendo novela, limpando cocô do cachorro, arrumando a cama, surtando com alguma bagunça que só passou a me incomodar naquele momento preciso. E quando finalmente sento ao altar, acabo reorganizando a mesa, revendo alguns papeis, jogando fora um monte de coisa. Ou ainda arrumando os ícones do desktop. Ou navegando na internet para buscar inspiração.

Assim, como num piscar de olhos, a dose diária de alta literatura se torna uma cavalar porção de procrastinagem braba.

É legal ter um home office charmosão. Mais legal ainda se você tiver uma prateleira de livros, móveis bacanas. Quem reclamaria de ter um espaço confortável em casa, não é mesmo?

O problema é que seu real motivo de existir praticamente nunca é alcançado. É usado para navegar na internet, pagar contas. Ler um livro, vá lá, é o mais próximo que vou chegar da intensa produção literária… Falta-me disciplina. Talvez este momento de sentar e produzir seja uma realidade para escritores veteranos e com mais talento.

Pra mim a ideia vem. PÁ! Onde estou? No metrô? No ônibus? Numa reunião? Sentado no troninho? Dane-se, ela não se importa, chega sem pedir licença. Já tentei tomar nota para escrever depois. Não rola. It’s now or never, diria Elvis, ao anunciar que amanhã não vai dar certo. Muitas vezes vira uma situação desesperadora. Na hora é genial, digno de gênio. Se eu anoto e olho depois, acho brega, ruim. A ideia pede para ser desovada na hora, ou estraga.

Neste momento estou sentado na mesa do escritório procrastinando trabalho e me rendendo à ideia que veio. Tantas outras “geniais” estão esperando no caderninho, mas é sempre assim: a ideia de hoje vem e fura a fila, independente da qualidade. É possível e muito provável que o caderninho sirva apenas como cemitério de boas ideias. Porquê dificilmente sairão de lá. As que chegam têm uma espécie de vida própria, quase psicografada na hora em que chegam. Se demorar pra sair, perde-se a conexão.

Não perco a fantasia de um dia ter um desses altares da Alta Literatura em casa. Daqui um tempo, quando eu já for um renomado escritor, vou chamar meus amigos, exibir o fantástico home office e mentir que é ali que me vêm as boas ideias, e que sentar e escrever é algo natural e fácil – e não este parto a fórceps que realmente é.

A gente precisa sustentar algumas fantasias e assustar os novatos, não é mesmo?

Desprezado pelos Rolling Stones

Com uma mãe fanática por Corínthians e Rolling Stones, eu não poderia seguir caminho diferente. Quer dizer, meu pai é palmeirense, mas o xeque-mate futebolístico da Sra. Madeira foi muito bem planejado: aos cinco anos ela me levou ao estádio e me apaixonei de vez. Não por causa do jogo ou do time, mas pela atmosfera boca-suja, aquela espécie de zona franca do palavrão, normalmente proibido e cabível de punições.

Fui também catequizado em Beatles, Kinks e Three Dog Night, mas com os Stones o casamento foi no civil e no religioso. Coisa de ouvir todos os dias. Virou nossa brincadeira, dançar um rock e cantar Rolling Stones sem saber a letra.

Quando eles finalmente vieram pro Brasil – com a turnê do álbum Voodoo Lounge no Morumbi – eu tinha apenas nove anos. Briguei, bati pé, chorei, mas não pude ir por ser muito pequeno. “No próximo eu te levo”, prometeu aquela mãe que jamais perderia a oportunidade de ver os Stones ao vivo.

Três anos se passaram, eu era um pouco mais independente (ou achava que era, aos doze) e expandi a playlist. Nessa época o Nirvana dividiu um pouco mais o CD Player com os velhinhos dos Stones. Isto é, até sair o disco novo deles, o Bridges to Bablylon, que também fez turnê no Brasil. E a Sra. Madeira cumpriu a promessa. Finalmente!

Preparamos tudo: faixa no cabelo, tênis confortável, água na garrafinha. Baita trânsito, flanelinha com preços abusivos e uma vaga a seis quilômetros da pista de atletismo do Ibirapuera – onde seria o show. Acompanhamos em procissão a multidão de velhinhos roqueiros, cruzamos o mar de filas, cambistas, vendedores de amendoim e cerveja.

Entrego o ingresso, o segurança dá aquela medida em mim. Olha pro ingresso novamente, volta pra mim. Respira fundo, torce o nariz: “Dona, tem o documento do menor?”. Lá estava. Mais alguns momentos de suspense. Os protestos da fila começam, ensaiam um empurra-empurra.

- Senhora, seu filho tem doze anos. Precisa ter quatorze pra entrar.

- Mas eu sou a mãe, ele está acompanhado.

- É quatorze acompanhado, dona. Doze não entra.

- Mas ele quer muito ver. A gente tá esperando por isso faz tempo. Libera a gente, moço.

- Sinto muito.

Caminhamos em silêncio no sentido contrário ao da multidão. Chegamos à calçada desolados e lá sentamos aos prantos. Não ia ser daquela vez. Passou um tempo, ainda estávamos ali. “No próximo eu te levo”.

Chegou 2006 e mais uma turnê dos velhinhos vinha pra cá, desta vez A Bigger Band. Eu tinha idade para ir até sozinho se quisesse, já tinha pêlo no peito, barba e até uma criança eu poderia adotar se me desse na telha. A Sra. Madeira não se animou muito em ir até o Rio de Janeiro – não ia rolar em São Paulo – para ver os Rolling Stones de graça na praia de Copacabana. Só que pra mim era questão de honra.

Peguei o ônibus e com um misto de excitação e fúria segui impassível para a praia. Sol a pino, eu não tiraria o pé dali até ver a cara enrrugada do Mick Jagger terminar de se esgoelar. Foi escurecendo e o lugar começou a encher.

O show foi bom. Desta vez não havia seguranças desalmados para barrar a entrada de crianças. Tinha até bebês, famílias inteiras assistindo. Não se via guaritas ou cambistas. Mas finalmente eu vi os vovôs do rock tocarem.

Não teve tanta graça assim.

O próximo assisto na TV, mesmo. Eu e mamãe.

Madruga não quer fazer revolução

Numa época em que minha tendência esquerdista era proporcional à diversão que eu pudesse conseguir com isso, me animei em ir para o Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Era 2005, ia ter discurso do Lula, palestra com o Saramago e tantas outras coisas que, por fim, eu não aproveitei tanto quanto as inesgotáveis festas do Acampamento da Juventude – 35 mil pessoas engajadas em se divertir, divididas em milhares de barracas de camping. Para mim aquela era a filial bolivariana do Rock in Rio.

Era festa a noite inteira, mas pela manhã era impossível dormir: diariamente éramos acordados pelo grito de guerra daqueles que realmente queriam mudar o mundo. Fiquei marcado pelo resto da vida por esta chaga da poesia marxista.
“Assim não dá, não vai dar não, quem quer dormir não vai fazer revolução!”, bradavam. Meus filhos, a única revolução que eu permitia naquele horário era estomacal, ressaca da noite anterior.

Talvez por uma culpa inconsciente de ter sido um peso-morto politicamente e ter ido ao Fórum Social Mundial apenas pelo agito,  meu espírito socialista aflorou de maneira inusitada. Num belo dia de calor extremo eu e minha comitiva fomos abordados por um jovem rapaz. Sem camisa, com uma mala rasgada e os dentes podres, Madruga – como gostava de ser chamado – estava perdido em Porto Alegre. Com pouco ou nenhum dinheiro, ele tinha saído de uma cidadezinha no extremo sul do país para encontrar um primo distante que morava em Florianópolis. Não tinha um telefone pra ligar nem um endereço para procurar. Apenas o primeiro nome do cara. Fracasso garantido.

Claro que ele não entendeu nada daquele fuzuê todo na capital gaúcha. O que podíamos fazer? Há dias dormindo na rua, Madruga era muito ingênuo e assustadiço. Levamos ele num espaço do MST que oferecia pratos de comida de graça. Mas para dormir ao relento era muito frio. Por isso reunimos nosso pessoal, contabilizamos as barracas e decidimos que ele poderia ficar em uma, era só a gente se apertar mais e exercer a cidadania de esquerda.

Tudo correu bem até a micareta esquerdista cumprir sua função: um a um, meus amigos e amigas encontraram suas alma gêmeas revolucionárias, tornando a convivência na barraca um pouco complicada para quem estava sem par. No caso, eu. Resultado? Sobrei. Eu e o Madruga.

Passamos a dividir a barraca, numa boa.  Claro que cogitei a possibilidade dele furar a minha barriga, arrancar um rim e vender para chegar em Florianópolis. Obviamente não aconteceu.

Tudo correu bem, mas logo chegou o último dia e precisávamos partir. Madruga se desesperou. Chorou, abraçou a gente. Eu me apeguei ao parceiro de barraca e dei aquela choradinha também. Como ele definitivamente não tinha condições de seguir viagem, fizemos uma vaquinha e bancamos a volta para sua cidadezinha natal.

Segui a vida, voltei para São Paulo. Passaram-se alguns dias e recebi uma ligação a cobrar. Atendi, era uma senhora, meio chorosa, falando. A mãe do Madruga. Me agradeceu pela ajuda. Chorei de novo.

Posso não ter sido o maior exemplo de engajamento esquerdista naquele fórum. Mas que meu karma deu um boost, isso deu.

Resenhas de livros que eu não li – José de Alencar


 José de Alencar (ex-vice-presidente da república e atual falecido), além do cargo que o tornou famoso, era um importante empresário brasileiro. O que mais se destacou em sua trajetória, entretanto, foi o talento que tinha pela escrita. Apaixonado pelo Brasil e militante da causa LGBT, Alencar retratava o presente e a vida urbana de seu tempo. Sua obra, além de bela, é um importante compêndio das mazelas a que sucumbiram o povo sofrido deste país.

Ligado à política, ele também escreveu Ubiratan, a biografia do coronel responsável pela invasão da penitenciária do Carandiru em 1992. Sem papas na língua, José dizia o que precisava ser dito.

Senhora, sua penúltima obra – sucedida pelo famoso livro psicografado do além, Encarnação – escancara a hipocrisia da sociedade a que se propõe a retratar. Aurélio Camargo é um homossexual que vive um romance tórrido com Fernando Seixas. A sociedade, entretanto, não aceita este amor. Em depressão, o casal decide seguir um rumo inusitado para seus amigos e familiares: a mudança de sexo. Assumindo-se Aurélia, nossa heroína inicia uma grande batalha contra tudo e todos pelo respeito e aceitação de sua pessoa. A mudança de sexo ocorre após muito sofrimento, uma dívida de cem mil quitada e muito bate boca. José de Alencar nos prova que não há limites para o amor. Ou, como diria Luan Santana, amar não é pecado e se eu estiver errado, que se dane o mundo – eu só quero você.

Outras obras importantes do autor: O Guarani, que conta a história de seu time de futebol do coração; Lucília – biografia da fabulosa socialite e empresária Lucília Diniz e Diva, a espetacular história de Suzana Vieira (com quem, dizem, ele tinha um caso).

José de Alencar é leitura obrigatória para quem busca compreender o mundo. Eu questiono, entretanto, as escolas que adotaram seu livro nas aulas. Primeiro porquê parece puxa-saquismo só porquê ele era vice-presidente, depois porquê eu aceito os gays, mas acho que não é um assunto adequado para crianças – imagina se a moda pega?

Resenhas de livros que eu não li – António Lobo Antunes

Boa tarde às coisas aqui embaixo conta a história de Petrônio – artilheiro do time de futebol local na fictícia cidade de Rusgalândia. Grande herói das crianças e considerado um exemplo a ser seguido, o atleta é de uma educação e moral impecáveis. Ele é muito solícito e atende a todas as necessidades de seus conterrâneos. Todas mesmo. Mas por baixo desta carapuça de bom moço reside um garanhão implacável e amante fervoroso de todas as moças casadas na cidade.

Um dia, entretanto, a vida lhe prega uma peça: minúsculos alienígenas-parasitas se instalam em sua virilha. Malvados e muito carentes, os pequeninos possuem poderes psíquicos inimagináveis. Logo no primeiro dia descobrem o segredo do bom moço Petrônio através da telepatia e resolvem chantageá-lo: ou o atleta os agracia com tardes agradáveis com sorvete, passeios na praça e montanhas-russa ou eles expôem a natureza promiscua do rapaz.

A confusão se completa quando as moças da cidade começam a cobrar a presença do moço em suas camas.

Boa tarde às coisas aqui embaixo é leitura obrigatória para todos os adúlteros com fungos ou micoses na virilha. O estilo inconfundível do autor garante uma leitura ritmada e cheia de reviravoltas. O que você faria se estivesse na pele de Petrônio?

Entre a carne seca e o Monte Olimpo

Em tempos de redes sociais nós somos definidos por uma lista de gostos e aptidões preenchida por nós mesmos. Como uma evolução do Curriculum Vitae, agora somos obrigados a praticar a auto-afirmação 24 horas por dia. Por isso precisamos listar nossas aptidões e interesses e, quando possível, achar uma maneira de passar a perna e rebaixar os outros.

Mas em qual momento foi determinado que aquilo que você lista como uma aptidão é, de fato, algo que você sabe fazer?

Eu sei cantar, por exemplo. Mas por algum motivo ninguém gosta do que eu canto. Poxa, passei a vida toda acreditando ter um dom. Talvez não soubesse ler uma partitura, não tivesse estudado nem treinado: foi um presente de Deus. Eu sei cantar. Minha esposa, meus amigos e minha família dizem o contrário. Mas eu confio no meu taco.

Posso não saber cantar para um público pagante, mas garanto que arraso no Karaokê. Pode colocar no currículo? “Não sou cantor profissional, mas quando tiver happy hour eu garanto a diversão da firma toda”. Ou devo arriscar, botar no currículo que sou um puta cantor e se um dia eu precisar colocar isso à prova invento uma dor de garganta para justificar a performance pífia?

Veja se você entende onde eu quero chegar: não importa se você é bom. Muitas vezes um cantor de karaokê bom acaba se dando melhor no ramo musical do que alguém que estudou a vida toda e, de fato, é bom. Alguns chegam lá por um puro insight genial, outros por sorte. Enquanto isso o mercado de qualquer área é dominado por prepotentes, arrogantes e incompetentes.

No fim é tudo uma questão de como você se vende. Se você convenceu seus futuros contratantes de que é extremamente capaz em algo que eles não fazem ideia do que seja, parabéns. Você vai ganhar uma grana, ser um imbecil e errar um monte de coisas. Se for ainda mais esperto vai conseguir responsabilizar por seus erros todos os funcionários abaixo de você hierarquicamente (que são frequentemente mais capacitados e preparados que você) e conquistar cada vez mais a confiança do diretor geral. Puxar saco e dar importância a sobrenomes ou aparições na mídia também pode te ajudar.

Saber cantar, saber escrever, ser palhaço, ator, administrador de empresas, designer. É tudo relativo. Ou você mostra seu trabalho cru pra mostrar que é bom ou bota ali na cara de pau uma aptidão que você não tem. Provavelmente seu chefe não tem também, é só demonstrar confiança que o emprego é teu.

Em resumo: profissionais ruins pegam o lugar reservado a profissionais bons porquê os medianos não tinham auto-estima nem cara de pau suficiente para se candidatar àquela vaga. E como os profissionais realmente bons são disputados a tapa, sobra espaço para que os verdadeiros inaptos dominem o mundo. Ou o mundo mediano, entre o Monte Olimpo e a carne seca. O mundo em que todos nós vivemos

Daí a passar o resto da vida engolindo sapo é um pulo.

Portanto, em uma entrevista de emprego, trabalhe no 8 ou 80. Ou você sabe ou não sabe. Nada de “ah, eu sei um pouco, fiz isso por dois dias no meu penúltimo emprego”. Não vai colar. O próximo entrevistado vai dizer que sabe e olhar a Wikipédia para embasar o argumento. E conseguir o emprego. E porra, mesmo nos seus únicos dois dias trabalhando nisso você é muito melhor do que esse imbecil!

O mundo, afinal, não é dos bons cantores de karaokê. É daqueles que não sobem ao palco porquê não querem estragar a divina voz – quando na verdade mal sabem cantarolar.

Entrevista: Dominique Jando – Palhaço e ex-Diretor Artístico do Big Apple Circus

Palhaço, ex-diretor artístico do Big Apple Circus, um dos fundadores do Festival Mondial du Cirque de Demain  - entre os maiores festivais de circo do mundo. Este é Dominique Jando, hoje professor no San Francisco Circus Center (onde eu estudei em 2010). Ele está entre os grandes estudiosos do circo atualmente e edita o site Circopedia, um database de informações circenses em formato wiki. Foi professor de tudo quanto é gente bacana do circo, lançou não sei quantos livros sobre o assunto e dá consultorias, dirige um ou outro espetáculo por aí.

Francês e excêntrico (como todo palhaço e todo francês deve ser), Dominique foi para os EUA para botar ordem na bagunça do show business circense americano. Sobretudo quando foi parar em San Francisco e encontrou aquele bando de circenses hippies se apresentando a céu aberto. Não se deixe enganar por suas blusas de lã em tons pastéis com a gola da camisa engomada aparecendo, nem com as meias propositadamente destoantes do conjunto. O cara é exigente. Não ri fora de hora, só ri do que realmente acha engraçado e não vai ter problemas em dizer que seu número é uma porcaria se de fato ele for mesmo. Para ele, palhaços devem sofrer. Detesta clownzinhos bonitinhos, não acredita em muita punhetação: ou é engraçado ou é ruim. Extremista, mas com um profundo amor pelo circo, ele é capaz de mudar a opinião de muitas pessoas sobre a apresentação de animais no circo – que ele defende e acredita.

No Circus Center ele dirige alguns espetáculos, dá aulas de Entrées, ou entradas clássicas de palhaços no picadeiro e coordena os grupos de leitura e aulas de história do circo. Ele é parte desta história, pois conviveu com a maioria das figuras importantes da área no séc. XX.

É com ele a segunda entrevista (que eu demorei meses para traduzir por pura falta de tempo) da série San Francisco Circus Center. A primeira foi com John Gilkey, palhaço do Cirque du Soleil.

Monsieur Dominique

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