A culpa é sempre do cachorrinho
Todos os dias ele acorda com a pá virada. Sai bufando pelos corredores com seu cabelo desgrenhado, punhos cerrados e muita tensão no queixo. A família – esposa, duas filhas e um cachorro hiperativo- já é gato escaldado: silencia o café da manhã ao primeiro ranger da porta do quarto. Papai acordou. Ninguém pisca, ninguém respira.
Vinte e duas pancadas secas de calcanhar cascudo em madeira podre prenunciam o momento mais desagradável do dia. Ele desce a escadinha do sobrado e já manda um “puta que o pariu” antes mesmo de fazer a dobra do corredor que chega à cozinha. “Essa escada é uma merda, mesmo, a gente tem que mudar desse buraco”, anuncia o patriarca conforme senta sem olhar para os lados. O problema da escada não é novidade para ninguém, já que ele gosta de tocar no assunto dia sim, dia não; alterna com a questão da porra do chuveiro que nunca esquenta.
Silêncio. Manuela olha para o pai, sorri. Ele não vê. Tenta um approach mais ousado. “Bom dia, papai”. Ele olha, respira fundo para acalmar, ensaia um sorriso seguido de afaguinho na cabeça. Resmunga um cumprimento envergonhado para a família. “Elas não merecem passar por isso”, pensa. Fica triste, pede desculpas, abraça as meninas e chora um pouco; diz que está muito estressado com o trabalho e que deseja proporcionar uma vida melhor para todos em uma casa melhor.
Úrsula traz os ovos mexidos e coca-cola – de manhã mesmo, hábito cultivado desde a juventude. Ele agradece, manda um “te amo”, tenta pegar na mão. Ela ignora, senta no lado oposto da mesa e arruma o lacinho de Beatriz. Manuela continua abraçada ao pai. “Sua mãe é tão linda, né Manu?”, provoca o pai. A filha concorda, a outra abre um sorriso e olha para Úrsula, esperando qualquer reação da mãe. Não acontece. Ele pede desculpas de novo, deixa escapar algumas lágrimas, as filhas percebem. Silêncio constrangedor.
Todo dia é assim. Aí ele chora, chora, chora e pede desculpas por ser tão estourado. Ela fica com dó, acaba chorando também, a família toda se abraça. O nível de amor chega lá em cima, o cachorrinho chega lambendo todo mundo, caem na gargalhada. Num instante são família-problema, no outro são comercial de margarina. Oh, happy day.
Agora está tudo bem. Ele levanta, escova os dentes, pega a maleta do trabalho e o bilhete único. Beijinho na Manu, na Bia e beijão em Úrsula. “Te amo”, “te amo”. Brinca com o cãozinho, dá um petisco e caminha em direção à porta, imponente. O perfeito pai de família. Estufa o peito com orgulho, estende o braço direito para agarrar a maçaneta.
Bloft. Afunda o pé em cocô de cachorro. Caralho, amor, você não limpou a bosta desse filho da puta ainda?












